A luz do sol de primavera entra pela janela do meu quarto. Olho o relógio. São 6:00. O melhor despertador. O mais pontual. "Que droga!" - resmungo. Por mais cedo que vá para cama, acordar sempre foi um problema para mim. "Não sou uma pessoa matutina. Não sou uma pessoa vespertina também. Nem tão pouco noturna" - continua a resmungar. Atualmente, não suporto sair da cama. Para nada. Comer. Tomar banho. Trabalhar. Estudar. Ler. Assistir TV. Nada me interessa". Minha vida é uma droga. Nada de interessante acontece, aconteceu, e acredito que não acontecerá. Vivo porque tenho medo do suicídio.
Várias vezes pensei nisso. Certa vez, cheguei a brincar, passando uma faca em meus punhos. Mas cadê a coragem para fazer com força? Sentir a pele sendo ferida, o sangue brotando pelo corte recém deferido nela? Só de pensar sinto uma mistura de aflição e prazer.
Esses pensamentos surgiram na adolescência. Fase difícil. Complicada mesmo. Não conseguia me encaixar. Não me enxergava pertencendo a nenhum grupo que frequentava. Ria. Festejava. Mas não me sentia querida. Para mim, as pessoas sempre me usavam. Sempre queriam que fizesse algo para elas. Queriam que eu as escutassem quando estavam com problemas. Mas quando a moeda virava: "Cadê todo mundo?" Tantas vezes me senti ridicularizada, diminuída, desprezada. Não só pelos de fora, mas por meus familiares também. Nunca fui uma pessoa querida. Por quê? Talvez o Espiritismo explique. Não acredito em vidas passadas, porém se existe, só pode está lá a explicação.
Não pense que melhorou com a idade adulta. Continuei sendo usada, não querida. Suportada. Esse sempre foi o sentimento que tive: Eu era suportada. Era necessária naquele momento, então tinham que me aceitar. Me suportar.
Essa sensação de ser aturada, suportada, necessária é, inacreditavelmente, dolorosa. Muito mais que a dor física. E a falta de coragem de findar essa dor por medo da outra, é esmagadora. Deixa a pessoa debilitada. Enfraquece. Adormece. Deprime.
Hoje trabalho. Sorrio. Brinco. Conto casos. Invento histórias. Aliás, como sempre fiz. Mas conviver com os outros é por demais perturbador. Não consigo mais me entregar. Deixar me envolver. Morro de medo de ser ferida. Magoada. É por demais doloroso. Permitir que alguém entre em sua vida, confiar, torná-lo amigo, se envolver em seus problemas, e em seguida ser traído ou traída, não isso não é mais para mim. Tenho meus colegas de trabalho, curso, academia, o escambau. Mas dentro de minha vida, sabendo minhas dores, não dá mais. Não tenho mais estomago, coração, forças para sofrer isso tudo e me erguer novamente. Fiz tanto, me imaginei uma Fenix, sempre ressurgindo das cinzas. E quantas cinzas foram!! Mas percebi que a Fenix é apenas uma figura mitológica, e que eu estou mais para um minotauro, preso num labirinto abandonado.
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