sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Morrendo


Hoje é sexta-feira. Final de tarde. Para muito o horário de trabalho está finalizado, mas para mim, eu não tenho esse luxo. Folga?!?! Isso é para os simples mortais, posso dizer que meu expediente é de 24/7, ou seja, vinte e quatro horas por sete dias na semana. E se o Homem inventasse mais um dia, eu trabalharia. Não. Não sou uma viciada em trabalho, mas ninguém faz meu trabalho como eu.

Hoje, estou acompanhando, especificamente, uma jovem na faixa dos vinte e cinco - trinta anos, a estou observando em seu escritório. Ela é gerente de uma grande multinacional. Cuida do Setor Financeiro da filial na cidade. Cargo de grande importância. ela é muito responsável e profissional, começou a trabalhar aqui quando, ainda, estudava no ensino médio, através do Programa Jovem Aprendiz. Cedo ela mostrou a que tinha vindo. Dedicada, começou como auxiliar de escritório, no cargo conhecido antigamente como office boy, ou no caso dela, officie girl... circulou por diversos setores nos dois primeiros anos do estágio. Mas se identificou com o financeiro. Na época do ENEM, decidiu cursar Ciências Contábeis.

Decidida a permanecer na mesma empresa, procurou seus chefes e conversou com eles.

__ Esse é meu último semestre no colégio. Mas gostaria muito de continuar a trabalhar aqui. Mesmo como estagiário.

__ Quais são seus planos para depois do colégio? - Perguntou Nora, Gerente de RH.

__ Vou entrar na faculdade de Ciências Contábeis e ser efetivada no setor aqui na empresa.

__ Você vai tentar, você quer dizer. - Corrigiu meu chefe.

__ Senhor, com todo respeito. EU. VOU. EU JÁ CONSEGUI. Em minha vida sempre pensei assim, se eu determinar que conseguirei algo. Conseguirei. E tem dado certo.

__ Pois bem. Vou levar sua solicitação à presidência e depois conversaremos. - Concordou Nora.

E foi exatamente o que aconteceu. Ela fez o ENEM, tirou uma excelente nota, o que abriu as portas de diversas faculdades, escolheu a estadual, por ser de renome e para não se comprometer com a mensalidade. Manteve seu estágio, mas um ano antes da formatura foi efetivada. E aos poucos foi recebendo promoções. Fez cursos de especializações e estava fazendo o mestrado.

Mas hoje é sexta-feira, e como todo trabalhador, após o serviço ela irá sair para curtir com suas amigas. 17:30. Ela tranca suas gavetas, desliga seu computador, pega algumas pastas para fazer uma revisão em casa durante o fim de semana, coloca dentro de sua maleta. Pega a bolsa e se despede da secretária. Espera o elevador com outros funcionários do andar. Desce os 12 andares que a separam da rua. Ainda no saguão do edifício, ela ouve o burburinho que vinha da rua. Estranha aquela movimentação toda. Pelo vidro do prédio ela podia ver pessoas correndo sem direção, de um lado para o outro. Ela continua seu caminho. Atravessa a porta de entrada. Caminha até a calçada. Sente o choque. Cai no chão. Agora começa meu serviço. A polícia chega. O SAMU também. Muitos no chão. Poças e mais poças de sangue.

Nossa amiga, lá deitada, segurando a bolsa e a maleta. Abre os olhos, percebe que está  no chão. E um corpo sobre o seu. Leva um susto. Quem é aquele estranho que a derrubou daquele jeito? Porque ele está em cima dela? Então vira a cabeça e olha para os lados. E ver todo o tumulto ao seu redor. Policiais correndo. Pessoas gritando, gemendo. Agentes do SAMU indo e vindo. O estranho se mexe.

__ Mantenha-se deitada. Está ferida?

__ Acho que não. O que aconteceu? Por que me derrubou?

__ Você estava na mira do atirador. Quando vi, me joguei. Desculpa pelo mal jeito.

__ Que é isso! Eu tenho que agradecer. Pelo visto, você salvou minha vida.

Dessa vez, não a levei. Mas nesta tarde, pelo menos 5 trabalhadores não curtiram sua sexta-feira. Não voltaram para suas casas. Não verão suas esposas, filhos, pais, familiares ou amigos. Seus corpos ficaram na calçada, inertes. Suas almas? Essas eu as levarei comigo. Agora pertencem a mim.

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